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Unabomber: como matemático superdotado que aterrorizou EUA com cartas-bomba foi preso há 30 anos

Há 30 anos, o FBI capturou um criminoso procurado há quase duas décadas, de quem quase não havia pistas Michael Macor/The San Francisco Chronicle via Getty ...

Unabomber: como matemático superdotado que aterrorizou EUA com cartas-bomba foi preso há 30 anos
Unabomber: como matemático superdotado que aterrorizou EUA com cartas-bomba foi preso há 30 anos (Foto: Reprodução)

Há 30 anos, o FBI capturou um criminoso procurado há quase duas décadas, de quem quase não havia pistas Michael Macor/The San Francisco Chronicle via Getty Images No dia 3 de abril de 1996, agentes federais americanos cercaram uma remota cabana de madeira nos bosques do Estado de Montana, nos EUA. Dali, eles retiraram Theodore "Ted" Kaczynski (1942-2023), uma figura despenteada que, até então, só existia na mente do público como um homem encapuzado com óculos escuros, em um cartaz de "procura-se". Por quase 18 anos, o Unabomber foi um dos criminosos mais procurados dos Estados Unidos — um sujeito misterioso que enviou bombas caseiras pelo correio, sem motivo claro nem padrão regular. Seus próprios escritos foram responsáveis pela sua captura. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Dois importantes jornais americanos, Washington Post e New York Times, concordaram em publicar seu manifesto antitecnológico, se ele prometesse não voltar a cometer homicídios. Suas palavras singulares foram identificadas, pela primeira vez, pela esposa do seu irmão, que nem mesmo o conhecia. Como destacou o jornalista Krishnan Guru-Murthy, do programa de TV Newsnight, da BBC, "o acadêmico que abandonou tudo para viver em uma cabana rústica deixou um rastro até sua própria porta". O início da caçada A busca pelo Unabomber começou em maio de 1978, quando ele enviou pelo correio uma bomba caseira rudimentar para a Universidade Northwestern, no Estado americano de Illinois. O artefato foi seguido por um segundo ataque, quase um ano depois. Em novembro de 1979, uma bomba detonada pela altitude, enviada pelo correio, explodiu a bordo de um voo da American Airlines. O artefato não funcionou conforme o esperado, mas 12 pessoas precisaram receber tratamento por inalação de fumaça. Como seus objetivos aparentemente eram universidades e linhas aéreas, o FBI americano atribuiu a ele o nome codificado UNABOM. O artigo publicado por Kaczynski em dois dos jornais mais importantes dos Estados Unidos trouxe pistas que permitiram sua prisão Evan Agostini via Getty Images Nos anos seguintes, ele utilizou bombas cada vez mais sofisticadas para atacar em outras 13 ocasiões, matando três pessoas: Hugh Scrutton, proprietário de uma loja de aluguel de computadores; Thomas Mosser, executivo do ramo da publicidade; e Gilbert Murray, lobista da indústria madeireira. Como seus alvos eram basicamente aleatórios e suas bombas eram fabricadas com objetos do dia a dia, como pedaços de madeira e fios de lâmpadas, os pesquisadores contavam com muito poucas pistas para encontrá-lo. O chefe de investigação balística do FBI, Chris Ronay (1944-2024), o apelidou de "bombardeiro dos reciclados". "Ele buscava em latas de lixo e materiais usados, onde encontrava coisas que poderia usar para fabricar algo, como um neandertal", contou Ronay à BBC, em 1996. Para justificar sua violência, em abril de 1995, o Unabomber enviou para os jornais americanos The New York Times e The Washington Post uma dissertação acadêmica de 35 mil palavras, intitulada The Industrial Society and its Future ("A sociedade industrial e seu futuro", em tradução livre). No ensaio, ele defendia que a vida moderna prejudicava a liberdade e a dignidade humana. E afirmava que, somente desmantelando os sistemas tecnológicos, seria possível evitar maiores danos sociais e psicológicos. O Unabomber se ofereceu a deixar de matar pessoas se o panfleto fosse publicado pelos dois jornais de maior prestígio do país. "A ansiedade inicial era evidente", contou à BBC, em 2016, o então diretor do The Washington Post, Donald Graham. "Se cedêssemos à exigência e aceitássemos publicar este documento, poderíamos abrir espaço para outras exigências de publicação de documentos similares? O agente especial do FBI Terry Turchie declarou à BBC que os investigadores pensaram inicialmente que a publicação do manifesto seria uma má ideia "por ser insensato demais". Mas, depois, eles reconsideraram sua posição. Eles defenderam que, se o manifesto fosse publicado, alguém quase certamente reconheceria a voz por trás dele, "pois essas palavras são muito apaixonadas". Após três meses de deliberações, seguindo o conselho do FBI, os diretores dos dois jornais decidiram publicar o ensaio do Unabomber. Muitos americanos se perguntaram por que um fugitivo, cuja imagem encapuzada aparecia em tantos cartazes do FBI, teria recebido o que eles consideravam um presente para qualquer terrorista: uma plataforma pública para difundir suas ideias. 200 suspeitos sérios O FBI ofereceu uma recompensa de um milhão de dólares por informações que levassem à identificação e à condenação do Unabomber. Sua linha telefônica gratuita criada em 1993 (1-800-701-BOMB) recebeu mais de 50 mil alertas. E, com todas as novas pistas contidas no manifesto, a imagem do misterioso terrorista começava a ganhar clareza. "O ego do Unabomber pode ter sido sua perdição", afirmou Guru-Murthy à BBC. "Além das ideias do tratado, descobriu-se mais sobre sua formação acadêmica, a partir das suas cartas enviadas a cientistas importantes." O grupo de trabalho do FBI dedicado ao Unabomber elaborou uma lista com os 200 principais suspeitos. Cinco deles foram colocados sob vigilância constante, todos no norte do Estado americano da Califórnia, onde os detetives acreditavam que ele estaria se escondendo. O grande avanço no caso veio de uma fonte inesperada: uma cidadã americana que estava de férias na França com seu marido, David Kaczynski. A professora de Filosofia Linda Patrik havia lido uma série de artigos sobre o Unabomber no jornal em inglês International Herald Tribune, publicado em Paris. "Eu lia aqueles artigos quase diariamente e meio que coçava a cabeça, pensando 'como isso se parece com o irmão de Dave'", contou ela à BBC em 2016. Em uma reportagem, eram mencionadas as habilidades de carpintaria do suspeito. Outra descrevia sua aversão à tecnologia. Outros indicavam cidades onde haviam explodido bomba - as mesmas onde seu cunhado havia morado ou trabalhado. Somando tudo, ficou impossível ignorar o padrão, segundo ela. E Patrik precisou fazer a incômoda pergunta ao seu marido: "É possível que o seu irmão seja o Unabomber?" David Kaczynski não acreditava que pudesse ser verdade, segundo ela. Mas, quando leu o manifesto, ele ficou atônito. "Dave ficou sentado, olhando para a tela do computador", ela conta. "Eu o vi ler a primeira página e sua expressão mudou radicalmente." "Aquela situação foi um pesadelo", contou David Kaczynski à BBC. "Literalmente, considerei a possibilidade de que meu irmão fosse um assassino em série, a pessoa mais procurada dos Estados Unidos, talvez do mundo inteiro." O dilema da família era brutal. Se eles permanecessem em silêncio, sua omissão poderia resultar em novas mortes. Mas, se Ted fosse o Unabomber, ele poderia enfrentar a pena de morte. "Como eu poderia passar o resto da vida com o sangue do meu irmão nas mãos?", questionou David Kaczynski. A busca pelo Unabomber durou 17 anos e Theodore Kaczynski foi o suspeito n° 2416. A agente especial do FBI Kathleen Puckett fez a seguinte declaração em 2025, ao programa de rádio Witness History, do Serviço Mundial da BBC: "Havia um baú que sua mãe guardava em Chicago, na casa da família. Nele, encontramos a versão original manuscrita do manifesto." Era um ensaio escrito por Kaczynski em 1971, contendo muitas daquelas ideias. Os investigadores reuniram provas suficientes para obter um mandado de busca na cabana de madeira de Kaczynski, localizada em uma zona rural, onde ele vivia sem água corrente nem eletricidade. "A cabana estava repleta de provas", relembra Puckett. "Era uma mina de ouro." Entre as descobertas, havia componentes de bombas, 40 mil páginas de diários manuscritos detalhando experimentos com bombas e relatos dos crimes do Unabomber, além de uma bomba pronta para ser enviada pelo correio. Kaczynski foi um prodígio da matemática, e as pessoas que o conheceram quando jovem acreditavam que ele seria um cientista renomado. Mas ele acabou atacando a própria ciência. Sygma via Getty Images De prodígio da matemática a desertor O irmão de Kaczynski, David, ficou atônito ao ver a prisão no noticiário. Em 2006, ele contou ao Serviço Mundial da BBC que "ele foi retirado da sua cabana entre dois agentes federais e seu aspecto era horrível." "Estava totalmente desalinhado. Sua roupa era pouco mais que farrapos e ele não tomava banho há meses." "E ainda ouvi-lo sendo descrito como um assassino em série, um terrorista?", relembra ele. "As informações que as pessoas tinham não correspondiam com as lembranças que eu tinha de Ted, sabe, o bom menino que foi meu irmão mais velho." A vida e os antecedentes de Kaczynski logo ficaram conhecidos. Prodígio da matemática com QI de 167, ele pulou dois anos para entrar na Universidade Harvard com apenas 16 anos. Depois de se formar, aos 20 anos de idade, ele continuou seus estudos na Universidade de Michigan, também nos Estados Unidos. Segundo seu antigo professor Peter Duren, "ele tinha muitas boas ideias, era um matemático muito original e, graças à sua tese, conseguiu emprego em Berkeley", na Universidade da Califórnia. "Parecia que ele se encaminhava rumo a uma brilhante carreira em matemática." Mas algo mudou a visão do mundo de Kaczynski, segundo Guru-Murthy. "Ele se rebelou contra a disciplina na qual se sobressaía e, em dois anos, abandonou a vida acadêmica", ele conta. "Depois de passar um tempo em Utah, ele se mudou para Montana, onde começou uma vida rural e isolada em uma pequena comunidade com cerca de 1 mil habitantes." "Era evidente que ele tinha uma mente excepcional", prossegue Guru-Murthy. "Mas, se os investigadores tiverem razão, tudo aquilo só serviu para alimentar a ira de um homem que desprezava o que representava seu trabalho." Kaczynski foi condenado à prisão perpétua em 1996, sem possibilidade de liberdade condicional. Ele passou as três décadas seguintes em prisões de todo o país, principalmente na prisão federal de segurança máxima de Florence, no Estado americano do Colorado. Um psiquiatra que o entrevistou na prisão diagnosticou Kaczynski com esquizofrenia paranoide, mas ele afirmava sempre saber exatamente o que estava fazendo. "Tenho certeza de que estou são", declarou ele em entrevista à revista Time, em 1999. Com a saúde deteriorada, Kaczynski se suicidou em 2023, aos 81 anos.