Parlamento Europeu decide suspender acordo comercial com os EUA
Em Davos, Trump diz que 'ninguém pode defender Groenlândia como os EUA' O Parlamento Europeu decidiu nesta quarta-feira (21) suspender a análise do acordo co...
Em Davos, Trump diz que 'ninguém pode defender Groenlândia como os EUA' O Parlamento Europeu decidiu nesta quarta-feira (21) suspender a análise do acordo comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos. O anúncio foi feito pelo presidente da Comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu, Bernd Lange, e confirma um movimento que já havia sido sinalizado na véspera. A decisão ocorre após declarações reiteradas do presidente americano, Donald Trump, defendendo que os EUA assumam o controle da Groenlândia, território semiautônomo ligado à Dinamarca. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 Segundo Lange, o Parlamento vinha avançando na definição de sua posição sobre duas propostas legislativas de Turnberry, com o objetivo de iniciar negociações com o Conselho Europeu e viabilizar os compromissos previstos no acordo entre UE e EUA. 🔎 O Acordo de Turnberry previa a suspensão de tarifas sobre todos os produtos industriais dos EUA exportados para a UE, além da criação de um sistema de cotas tarifárias para diversos produtos agroalimentares americanos. Esse mecanismo permitiria a entrada de determinados volumes desses itens no mercado europeu com tarifas reduzidas ou zeradas. Esse processo, porém, foi interrompido após o que ele classificou como uma "quebra do acordo". Trump anunciou que pretende impor uma tarifa de 10% sobre produtos europeus a partir de fevereiro caso a Groenlândia não passe ao controle americano até junho. “Ao ouvir o discurso dele [Trump] em Davos, não houve qualquer recuo de posição. Ele quer que a Groenlândia faça parte dos EUA, quer sentar à mesa para discutir um preço. O único compromisso assumido foi o de não usar força militar sobre a Groenlândia.” LEIA TAMBÉM Em Davos, Trump insiste em compra da Groenlândia e diz que não fará uso da força, mas ameaça Europa e Otan Lange afirmou que está totalmente claro que, com esse tipo de pressão, Trump "inaugura um novo tipo de relação”, ao passar a usar tarifas como instrumento de coerção. Segundo ele, essa avaliação é compartilhada por seus colegas, diante da pressão exercida sobre a UE para que o território semiautônomo da Dinamarca seja vendida aos EUA. “Vamos manter o andamento de dois processos suspenso até que haja clareza sobre a Groenlândia e sobre essas ameaças”, acrescentou o presidente da Comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu. De acordo com Lange, enquanto esse cenário persistir, “não há possibilidade de compromisso”. 'Chantagem' americana O governo francês já havia elevado o tom contra a postura dos EUA nas negociações com a UE. Ontem, o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, afirmou que Washington tem recorrido a ameaças tarifárias como forma de pressão política, classificando a estratégia como uma tentativa de impor concessões que considerou injustificáveis. Para ele, o uso de tarifas caracteriza uma "chantagem". Barrot também declarou apoio à decisão de suspender o acordo comercial entre a UE e os EUA e ressaltou que a Comissão Europeia dispõe de mecanismos para reagir a eventuais medidas adotadas pelo governo americano. 🔎 O tratado, firmado em julho do ano passado, previa a aplicação de tarifas de 15% pelos EUA sobre a maior parte dos produtos europeus, enquanto a União Europeia se comprometeria a reduzir parte das taxas cobradas sobre importações americanas. Apesar do acerto político, o acordo ainda dependia de aval formal do Parlamento Europeu e dos governos nacionais, com início de vigência previsto entre março e abril deste ano. Com a suspensão do processo, o bloco europeu voltou a considerar a adoção de tarifas retaliatórias, que poderiam alcançar 93 bilhões de euros, além da possibilidade de limitar o acesso de empresas americanas ao mercado europeu. No Fórum Econômico Mundial, em Davos, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reforçou que a soberania da Groenlândia não está em negociação e alertou que a escalada de pressões tarifárias representa um erro estratégico para ambos os lados. Por que Trump quer adquirir a Groenlândia? Nas últimas semanas, o presidente americano intensificou as iniciativas para anexar a Groenlândia. Isso porque, além de a ilha do Ártico ser considerada uma rota marítima estratégica para o comércio global e a exploração de matérias-primas críticas, Trump também a considera crucial para a construção do chamado Domo de Ouro — escudo antimísseis que ele deseja erguer para proteger os EUA. "Os Estados Unidos precisam da Groenlândia para fins de segurança nacional. Ela é vital para o Domo de Ouro que estamos construindo. A Otan deveria liderar o processo para que a conquistemos. Se não o fizermos, a Rússia ou a China o farão, e isso não vai acontecer!", escreveu o republicano em uma publicação nas suas redes sociais na semana passada. Em resposta às declarações de Trump, países europeus anunciaram o reforço da segurança na região, incluindo o envio de pequenos contingentes militares à ilha, a pedido do governo da Dinamarca. Em comunicado conjunto, Dinamarca, Alemanha, França, Reino Unido, Noruega, Suécia, Finlândia e Holanda afirmaram estar comprometidos com a defesa da Groenlândia e com o fortalecimento da segurança do Ártico no âmbito da Otan. O governo da Groenlândia agradeceu publicamente o apoio europeu. A crise também provocou protestos populares. Milhares de pessoas foram às ruas da Groenlândia e de Copenhague no sábado para criticar a intenção de Trump de anexar o território. Pessoas participam do protesto "Tirem as mãos da Groenlândia", realizado após a Casa Branca afirmar que os EUA estavam considerando uma série de opções para adquirir a ilha. Ritzau Scanpix/Emil Helms via Reuters