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Pacientes do Norte viajam até 6 vezes mais que os do Sul para tratar câncer; acesso ainda depende do CEP

Receber um diagnóstico de câncer deveria acionar uma corrida contra o tempo. Para muitos brasileiros, porém, o primeiro obstáculo não é o tumor —é cheg...

Pacientes do Norte viajam até 6 vezes mais que os do Sul para tratar câncer; acesso ainda depende do CEP
Pacientes do Norte viajam até 6 vezes mais que os do Sul para tratar câncer; acesso ainda depende do CEP (Foto: Reprodução)

Receber um diagnóstico de câncer deveria acionar uma corrida contra o tempo. Para muitos brasileiros, porém, o primeiro obstáculo não é o tumor —é chegar até o tratamento. No interior do Amazonas, a dona de casa Jakeline Cardoso Lima, de 41 anos, levou três dias de barco para chegar a Manaus e confirmar um câncer de colo do útero. Sem oferta de tratamento na cidade onde mora, ouviu que não havia alternativa: teria de permanecer na capital durante toda a terapia. A paciente oncológica Jakeline Lima Arquivo Pessoal Sem condições de ir e voltar, teve de mudar de casa. Levou uma das filhas, de 16 anos, para ajudá-la no cuidado durante o tratamento e deixou a mais nova com o avô. Foram seis meses fora de casa para conseguir completar 28 sessões de radioterapia, além de quimioterapia e outros procedimentos. A trajetória individual expõe um padrão nacional: no Brasil, o acesso à radioterapia —um dos principais pilares do tratamento oncológico— ainda varia de acordo com o lugar onde o paciente vive. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Um país, cinco realidades de acesso Dados de um estudo nacional publicado em 2026 na revista científica International Journal of Radiation Oncology, Biology, Physics, que analisou mais de 840 mil procedimentos do Sistema Único de Saúde (SUS), mostram que mais de seis em cada dez pacientes precisaram sair do próprio município para fazer radioterapia. A distância média no país é de 120 quilômetros. Mas essa média esconde um contraste profundo: 442 km no Norte. 238,9 km no Centro-Oeste. 161,8 km no Nordeste. Cerca de 70 km no Sul e Sudeste. Na prática, isso significa que um paciente do Norte percorre até seis vezes mais do que alguém do Sul para acessar o mesmo tipo de tratamento. Para o médico radio-oncologista, pesquisador em oncologia e professor da Queen’s University, Fabio Ynoe de Moraes —membro da Sociedade Brasileira de Radioterapia—, o dado traduz um problema estrutural: o acesso ao tratamento ainda é determinado pelo território. Distância que não cabe no mapa Apesar da dimensão dos números, a desigualdade pode ser ainda maior do que a medida pelo estudo. Isso porque a análise calcula a distância em linha reta entre cidades —um padrão técnico para estudos nacionais, mas que não corresponde ao trajeto real enfrentado pelos pacientes. Na prática, o deslocamento depende de estradas, conexões entre municípios e disponibilidade de transporte. Em regiões como a Amazônia, pode incluir dias de viagem por rios, como aconteceu com Jakeline. “Dois pacientes com a mesma distância podem enfrentar cargas completamente diferentes”, afirma Moraes. Além disso, o estudo não incorpora tempo de viagem nem custos indiretos —como transporte, alimentação e hospedagem—, o que tende a subestimar o impacto real do acesso ao tratamento. Tratamento contínuo transforma deslocamento em barreira A radioterapia não é feita em uma única etapa. Em muitos casos, exige sessões diárias ao longo de várias semanas. Jakeline passou por esse processo: foram aplicações todos os dias, o que tornou inviável qualquer tentativa de ir e voltar para casa durante o tratamento. Esse modelo transforma a distância em um fator decisivo. Na avaliação de Moraes, o peso do deslocamento tende a impactar principalmente o início da terapia —fase em que atrasos podem comprometer o controle da doença— e pode influenciar a continuidade do tratamento ao longo das semanas. Embora o estudo não tenha medido diretamente abandono ou atraso, há evidências de que trajetos longos dificultam o acesso e podem interferir nas decisões terapêuticas. Mais tecnologia, mais distância Nem todos os tratamentos estão igualmente disponíveis. Procedimentos mais complexos —como braquiterapia e radioterapia estereotáxica— exigem equipamentos avançados e equipes especializadas, concentrados em poucos centros do país. Como consequência, pacientes que precisam dessas terapias percorrem distâncias ainda maiores. O estudo mostra que esses casos têm média de deslocamento superior à dos tratamentos convencionais, o que evidencia uma desigualdade também no acesso à tecnologia. Quem não chega ao tratamento não entra na conta Há ainda uma dimensão que não aparece nos números. A análise foi feita com base em procedimentos autorizados no SUS —ou seja, considera quem conseguiu iniciar o tratamento. Pacientes que não chegam ao serviço, não conseguem encaminhamento ou desistem antes de começar podem ficar fora do retrato. Isso indica que a desigualdade pode ser ainda mais profunda do que a observada. Infraestrutura concentrada mantém o desequilíbrio A radioterapia depende de equipamentos de alta complexidade, como aceleradores lineares, responsáveis por emitir radiação de forma precisa para destruir células tumorais. No Brasil, esses equipamentos estão concentrados em capitais e grandes centros urbanos. Ao mesmo tempo, afirma a Sociedade Brasileira de Radioterapia, o país ainda enfrenta déficit dessas máquinas, enquanto a incidência de câncer cresce. Ainda segundo a entidade, sem expansão planejada e melhor distribuição da rede, a tendência é de manutenção —ou até ampliação— das desigualdades regionais. Para Moraes, enfrentar o problema exige mais do que aumentar a capacidade instalada. É necessário reorganizar a rede e direcionar investimentos para regiões com maior carência, para que a oferta de tratamento acompanhe a necessidade da população. Enquanto essa mudança não se concretiza, o acesso continua sendo resolvido, na prática, caso a caso —como o de Jakeline. Após meses em Manaus, ela concluiu o tratamento e hoje está em acompanhamento, com exames indicando remissão da doença. Mas, para chegar até esse resultado, precisou reorganizar completamente a própria vida —da rotina da casa ao cuidado com as filhas. A história dela ajuda a traduzir o que os dados mostram: no Brasil, o acesso ao tratamento contra o câncer ainda não é apenas uma questão médica. Em muitos casos, é também uma questão de distância, e de tudo o que ela impõe.