João, filho da Elis Regina, se emociona com lembranças da mãe e ainda sente ela cantando para ele
Elis Regina e o filho João Marcelo Bôscoli Reprodução e Matheus Müller/g1 Santos João Marcelo Bôscoli, filho da cantora Elis Regina, empresário e produt...
Elis Regina e o filho João Marcelo Bôscoli Reprodução e Matheus Müller/g1 Santos João Marcelo Bôscoli, filho da cantora Elis Regina, empresário e produtor musical, de 55 anos, conversou com o g1 sobre a relação com a mãe: na infância, até os 11 anos, e depois da morte dela, quando nasceu a responsabilidade de prezar pela memória e manter viva a artista referência na música brasileira. ✅ Clique aqui para seguir o novo canal do g1 Santos no WhatsApp. Em um bate-papo descontraído, mas com emoção, João (o filho da Elis) lembrou momentos únicos com a mãe, como a chegada inesperada de uma viagem aos EUA, quando ela o surpreendeu em uma praia do Rio de Janeiro. Essa, inclusive, é uma das imagens que ele lembra quando fecha os olhos. Ainda teve espaço para falar sobre as músicas favoritas da cantora, que o deixaram com a voz embargada, bem como da presença firme da mãe, rígida e, segundo ele, fiel às mães dos anos 70. Ah, e não estranhe a referência a ele como João, filho da Elis. O próprio prefere que seja assim! A entrevista ocorreu quando ele esteve em Santos para o lançamento do livro: 'Elis e Eu - 11 anos, 6 meses e 19 dias com a minha mãe'. Confira o conteúdo completo abaixo. Agora no g1 Você tem alguma história especial com a Baixada Santista? Alguma lembrança marcante, curiosidade ou passagem que tenha vivido aqui na cidade? Sim, o meu filho mais novo (André, de 10 anos), a avó dele tem um apartamento há muitos anos lá em São Vicente. Então, quando ele vem para cá, eu venho visitar e a gente sai andando de bicicleta e caminhando pela orla. Então, posso te dizer que, das memórias mais significativas para mim, que são as experiências que tenho com os meus filhos, aqui eu tive muitas vezes. O Artur (de 14 anos), a gente tem a memória de pegar onda aqui. Ele é surfista e eu pego jacaré. E qual é a relação da tua mãe com a cidade? É assim, a Elis vinha muito para essa região nos anos 60 porque tinham alguns festivais que ela ganhou, que ela apresentou e participou, que tinham as suas eliminatórias, os seus shows aqui na região. Então, isso tem fotos dela, inclusive, nas praias aqui do litoral, aqui em Santos. E a relação dela com o Pelé, como se deu essa ligação? Sempre houve essa relação com o Pelé. Ela gravou com Pelé o ‘Vexamão’ e o ‘Perdão não tem’ na véspera da Copa do Mundo, ele acabara de classificar o Brasil, e aí queria ir rápido pro vestiário porque estava nervoso para gravar. O Roberto Menescau, o fundador da Bossa Nova, ficou correndo do lado dele na Volta Olímpica, levou ele para o vestiário, ele se arrumou rápido, foi para o estúdio, chegou lá, estava rouco. Usou uma solução lá de água com limão espremido, melhorou um pouco e gravou. Você vê que ele tá levemente rouco, mas é incrível. Então, tive a honra de já nascer com essa relação, com essa mágica. E, recentemente, meses antes dele nos deixar fisicamente, ele pediu, por meio de uma amiga em comum, que fossem entregues duas bolas. Ele falou: “Entrega para os netos da Elis, os filhos do João”. Então tem uma para o Artur e para o André, assinada por ele. Aí eu falei: Meninos, olha, guarda porque isso aqui não é para mexer nunca mais. E muito emocionante. Você costuma se referir à sua mãe na terceira pessoa, a chamando de Elis. Por que você faz essa escolha? Olha, por várias razões. A primeira é porque a minha mãe, ela contém a Elis. Só que tem outras faces, como todos nós. Você não se circunscreve à sua vida profissional. Eu cuido da minha mãe como todo filho ou quase todo filho cuida ou poderia cuidar. Como ela lida com emoção e tocou muita gente, para mim também é importante que as pessoas saibam, a minha coisa é completamente circunstancial. Eu cuido da minha mãe como todo filho ou quase todo filho cuida ou poderia cuidar. Eu quero que todo mundo saiba que, claro, eu sou filho biológico, mas com relação à admiração e à beleza, a gente está na mesma, está todo mundo junto, porque a Elis Regina é uma figura pública. A Elis é sua. Você tem uma história com a Elis, então você não tem uma história com a minha mãe, você tem uma história com a sua Elis, que também é a minha Elis. Só que atrás dessa [Elis] tem uma senhora, uma mulher, uma jovem. Como ela fala: uma menina, uma mulher, uma senhora, né? Que tem a sua vida normal, que vai ao supermercado, tem medos, anseios, dúvidas. [Elis Regina] é a face pública. Lembrando aqui da região, desse fenômeno da natureza que surgiu aqui, tem o Edson e tem o Pelé, né? E minha mãe é como se fosse o Edson. E como era a Elis como mãe? Olha, eu acho que é um tipo interessante, porque conseguia, mesmo sendo quem era, trabalhando muito, conseguia usar o seu prestígio, a sua força, para poder trazer a gente, às vezes, nas férias, nas suas viagens. Ela também fez muitas temporadas onde ela ficava, tipo, Falso Brilhante ficou um ano e um ano e meio em cartaz. Se eu passei 11 anos com ela e tenho lembranças claras de 9 anos mais ou menos, por um ano e meio ela já ficou parada em casa, ou seja, ela viajava muito pouco. No Rio de Janeiro em 80 ela ficou um ano também. Então, se por um lado era uma pessoa que tinha uma atividade muito grande, por outro ela conseguiu estar presente. Acho que era uma mãe rigorosa, uma mãe que eu chamo de mãe anos 70, que nunca me bateu, mas era rígida, me segurava pelo braço e sempre me lembrava de que quem mandava na casa era ela. E eu me lembro disso com muito carinho, sempre me senti muito amado nessas broncas. Como que é ver a vida da sua mãe retratada em filmes e documentários? O que é importante a gente manter sempre no nosso horizonte é que todos nós temos momentos muito ruins e muito bons. Todos nós erramos mais do que acertamos, eu creio, tanto que a gente comemora os acertos. Nós temos uma posição desde sempre, eu e meus irmãos, de não se meter. Eu vi o filme do Hugo Prata que você citou no cinema, e a gente nunca pediu livro, quero ler antes, nunca. A gente acha que se a gente fizer isso, pode parecer uma pequena ação, mas isso vai se tornando uma onda onde o final dessa onda é no esquecimento da Elis e na antipatia e tal. Ela é uma pessoa pública. Então, a gente olha tudo com amor, com gratidão. Ser filho da Elis Regina pesou de alguma forma na sua carreira? Eu não sou cantor... Então, é na mesma área, mas não é exatamente a mesma atividade. Quando ela nos deixou fisicamente, o que me manteve muito esperançoso foi o amor das pessoas. Então, na verdade, eu fico até incomodado quando sai algo (na mídia citando) João Marcelo Bôscoli. Eu falo: ‘Quem é João Marcelo Bôscoli? Cadê o filho da Elis’. Eu me sinto o João, filho da Elis. Uma lembrança que te vem na mente com a tua mãe? Eu, deitado na areia, não sabendo que ela iria voltar de Los Angeles (EUA). Eu estava deitado e, assim que abri os olhos, tinha um sol, e entrou a cabeça dela, que ficou entre o sol e a minha visão por dois, três segundos — dos mais legais. Isso foi em 1980, no Rio de Janeiro, na Praia da Joatinga. A saudade é a presença dela, não é ausência dela. Qual a sua música preferida da Elis? Eu gosto de 'João Valentão'. “João Valentão é brigão pra dar bofetão, não presta atenção e nem pensa na vida”... Quando eu fazia coisa errada, eu achava que ela tinha gravado isso para mim, só que eu nem tinha nascido. E também gosto de 'Só tinha de ser com você', porque eu sempre achei que ela estava cantando para mim. Todo dia tem música dela na sua casa? Tem, tem. Eu não preciso apertar o botão, os algoritmos sabem que eu gosto da Elis Regina. E eu não sei ficar triste por causa da Elis, eu sei me emocionar. Qual é o sentimento quando você escuta ela cantando para você? Eu teria que ser o Shakespeare para dizer. O que eu posso dizer é que em todas as áreas da minha cabeça acontecem uma sinfonia neural que poderia se chamar ‘por Elis’. VÍDEOS: g1 em 1 Minuto Santos