‘Consequência da falta da mãe’: especialista em animais silvestres explica comportamento do filhote Punch e dos macacos que o rejeitaram
Macaco viraliza ao abraçar pelúcia após ser rejeitado pela mãe Vídeos de um filhote de macaco-japonês chamado Punch, que vive no zoológico de Ichikawa, n...
Macaco viraliza ao abraçar pelúcia após ser rejeitado pela mãe Vídeos de um filhote de macaco-japonês chamado Punch, que vive no zoológico de Ichikawa, no Japão, viralizaram nas redes sociais e provocaram comoção e revolta. Nas imagens, o animal aparece circulando pelo recinto agarrado a um orangotango de pelúcia laranja, após ter sido rejeitado pela própria mãe e pelos outros macacos. Segundo a veterinária especialista em animais silvestres, Sinara Matos, tanto o comportamento de Punch com o brinquedo, quanto o dos outros macacos que o rejeitam é consequência da falta do contato materno e da dificuldade social de um filhote que não teve a mãe para intermediar sua relação com o bando. Um dos registros mais recentes mostra Punch tentando interagir com outro filhote do grupo. Ele é evitado e, em seguida, arrastado por uma macaca adulta — que, segundo o zoológico, provavelmente é a mãe do outro filhote e teria reagido para proteger o próprio bebê. Punch adotou macaquinho de pelúcia após ser rejeitado por grupo Ichikawa Zoo Depois do episódio, Punch corre até o brinquedo e o abraça. A cena foi interpretada por muitos usuários como um retrato de “abandono” e solidão. A veterinária ressalta que, entre os primatas, o vínculo entre mãe e filhote é extremamente forte e essencial nos primeiros meses de vida. Como esses animais vivem em grupos, a apresentação do recém-nascido ocorre por meio da mãe. “Filhotes aprendem linguagem social, postura e hierarquia através da mãe. Indivíduos sem esse aprendizado têm mais dificuldade de integração social com o bando. Sem uma figura materna para intermediar , o primeiro comportamento do grupo costuma ser de rejeição””, explica Sinara. Objeto para substituir contato físico é prática conhecida Punch foi abandonado ao nascer, há sete meses. De acordo com reportagem da agência Reuters, tratadores precisaram agir rapidamente, já que, nessa espécie, o ato de se agarrar à mãe é fundamental tanto para a segurança quanto para o desenvolvimento da força muscular. Sinara explicou que o uso de objetos como substitutos do contato físico é uma prática conhecida na medicina de animais silvestres. Antes de oferecerem o orangotango de pelúcia, os funcionários do zoológico testaram toalhas enroladas e outros brinquedos. O tratador Kosuke Shikano afirmou que o modelo escolhido tem pelos longos e pontos fáceis de segurar, além de se assemelhar a um macaco — o que pode ajudar na futura reintegração ao grupo. Impactos fisiológicos da privação Apesar da narrativa de abandono ter dominado as redes, Sinara pondera que o filhote não tem esse sentimento humano. “Ele não compreende abandono como conceito. O que acontece é uma consequência fisiológica da privação materna para o desenvolvimento dentro do grupo”, afirma. Entre os efeitos possíveis estão aumento do cortisol basal (hormônio relacionado ao estresse), dificuldade de regulação emocional, maior dependência de estímulos táteis e atraso no desenvolvimento social. O próprio zoológico informou que Punch já teve outros desentendimentos com membros do grupo, mas que isso faz parte do processo de aprendizado e que ele está se integrando gradualmente. Segundo o comunicado, após ser arrastado no episódio mais recente, o filhote voltou a interagir com os demais macacos e se comportou normalmente nos horários de alimentação. Para os tratadores, a expectativa é que, com o tempo, Punch deixe de depender do brinquedo.