Casares renuncia à presidência do SP: Entenda investigação sobre desvios no clube e depósitos fracionados
O São Paulo decide esta semana se mantém ou afasta o presidente Julio Casares renunciou ao cargo de presidente do São Paulo nesta quarta-feira (21). Ele era ...
O São Paulo decide esta semana se mantém ou afasta o presidente Julio Casares renunciou ao cargo de presidente do São Paulo nesta quarta-feira (21). Ele era alvo de um processo de impeachment em meio a investigações da Polícia Civil que apuram suspeitas de desvios de dinheiro no clube. Ele nega as acusações (confira na íntegra a carta abaixo). O caso foi explicado pelo Fantástico no dia 11 de janeiro - VEJA ACIMA. As apurações começaram a partir de uma denúncia anônima e resultaram na abertura de um inquérito policial para investigar saques milionários em dinheiro vivo, a atuação de dirigentes e possíveis crimes como associação criminosa, apropriação indébita e furto qualificado. O clube, segundo a própria polícia, é tratado como possível vítima. Saques em espécie somaram R$ 11 milhões Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), obtidos durante a investigação, apontam que o São Paulo realizou 35 saques em dinheiro vivo entre 2021 e 2025, que somam R$ 11 milhões. Inicialmente, os dois primeiros saques — no valor total de R$ 600 mil — foram feitos por um ex-funcionário do clube. Depois disso, as retiradas passaram a ser realizadas por meio de uma empresa de transporte de valores. Segundo a polícia, o dinheiro era sacado no banco e levado à tesouraria do clube. O ano de maior movimentação foi 2024. Em 2025, foram registrados 11 saques que totalizam R$ 5,2 milhões, além de outros cinco saques que somam R$ 1,7 milhão. Para os investigadores, o uso de carros-fortes dificulta o rastreamento da destinação final dos recursos. “O ponto central da investigação é entender o motivo desses saques em espécie e para quem esse dinheiro foi entregue”, afirmou Tiago Correia, o delegado responsável pelo caso. Clube diz que valores são contabilizados A defesa do São Paulo afirma que o clube não é alvo da investigação e que todos os valores sacados estão registrados na contabilidade. Segundo o advogado, o pagamento de despesas em dinheiro vivo é comum, como no caso da arbitragem e do pagamento de “bicho”, a premiação por desempenho aos jogadores. "Os R$ 11 milhões pertenciam ao São Paulo e foram sacados pelo próprio clube para honrar despesas. Cem por cento dos valores estão contabilizados e constam no balanço”, disse. Dirigente investigado e apuração ampliada Um dos nomes citados no inquérito é o de Nelson Marques Ferreira, que foi diretor-adjunto do São Paulo entre 2021 e novembro de 2024. A investigação se aprofundou após a polícia identificar a abertura de cerca de 15 franquias comerciais ligadas a ele em um curto período. A partir disso, o Coaf foi acionado para analisar movimentações financeiras do clube. Nelson Marques Ferreira não respondeu aos pedidos de entrevista. Conta de Júlio Casares também foi analisada A investigação também analisou uma conta conjunta mantida por Júlio Casares e sua ex-esposa, Mara Casares. De acordo com relatório do Coaf, foram feitos depósitos nessa conta que somam R$ 1 milhão, feitos em dinheiro vivo foi feito entre janeiro de 2023 e maio de 2025. A polícia afirma que não encontrou vínculo direto ou indireto entre os saques feitos pelo São Paulo e os depósitos na conta do presidente. A defesa de Casares diz que os valores têm origem lícita e que ele acumulou recursos ao longo da carreira na iniciativa privada. O relatório aponta ainda que os depósitos foram feitos de forma fracionada, com operações abaixo de R$ 50 mil — limite que aciona comunicações automáticas ao Coaf. Em alguns dias, houve até 12 depósitos. “O dinheiro é do Júlio para o Júlio, tem origem e lastro. Isso será demonstrado no inquérito”, afirmou o advogado do presidente, que disse ainda que Casares determinou apuração interna por meio do setor de compliance do clube. Esquema de camarotes e citações a ex-diretores Outro ponto investigado envolve um esquema de comercialização clandestina de camarotes do estádio do São Paulo durante grandes shows. O caso levou ao afastamento de Mara Casares do cargo de diretora de eventos, em outubro do ano passado. Esta também foi o que levou o presidente do clube ao processo de impeachment. Um áudio atribuído ao ex-diretor Douglas Schwartzman, no qual ele cita Mara Casares, foi incluído na apuração. As defesas de ambos afirmam que o material foi divulgado fora de contexto e falam em julgamento antecipado. Confira a carta de Casares na íntegra: Ao longo de minha trajetória à frente da Presidência do São Paulo Futebol Clube, atuei com absoluta seriedade, firmeza, responsabilidade e compromisso com a defesa da instituição, sempre orientado pelo respeito à sua história, à sua grandeza e à sua torcida. Nos últimos meses, o clube passou a viver um ambiente de intensa instabilidade, marcado por ataques reiterados, narrativas distorcidas e pressões externas que extrapolaram o debate institucional legítimo. O que se iniciou como versões frágeis e boatos foi sendo reiteradamente reproduzido, amplificado e, gradativamente, tratado como verdade, mesmo sem a apresentação de fundamentos consistentes ou provas robustas. Formou-se, assim, um contexto de grave contaminação do debate, no qual ilações passaram a ocupar o lugar dos fatos e suposições foram apresentadas como certezas, em um processo que, aos poucos, transformou versões construídas em verdades aparentes. Não afirmo, neste momento, autoria, métodos ou responsabilidades específicas, até porque tais questões devem ser devidamente apuradas pelos órgãos competentes. Contudo, é impossível ignorar que houve articulações de bastidores, distorções deliberadas e uma trama política ardilosa, marcada por interesses, traições institucionais e expedientes incompatíveis com a história e os valores do São Paulo Futebol Clube — fatos que o tempo e a história haverão de registrar. Esse cenário afetou profundamente a governança do clube e, de forma absolutamente inaceitável, ultrapassou os limites da esfera institucional, alcançando minha família e minha vida pessoal. Não renunciei anteriormente porque entendi ser meu dever exercer, até o fim, o direito à ampla defesa e ao contraditório. Enfrentei esse processo de maneira direta, presencial e com dignidade, mesmo diante de um ambiente já contaminado por narrativas previamente construídas. Na prática, a manifestação realizada na tribuna foi o único espaço efetivo que me foi concedido para apresentar minha defesa, em um rito sumário que, ao meu juízo, restringiu a necessária produção de provas e o pleno esclarecimento dos fatos. A decisão tomada por este Conselho encerra um processo de natureza política. Respeito essa decisão, ainda que dela discorde, e reafirmo, com absoluta convicção, que jamais pratiquei qualquer irregularidade. Minha renúncia não representa confissão, reconhecimento de culpa ou validação das acusações que me foram dirigidas. Diante da continuidade desse ambiente, da necessidade de preservar minha saúde e, sobretudo, de proteger minha família de ataques e ameaças gravíssimas, bem como para evitar que essa disputa política continue a prejudicar o time de futebol e o ambiente esportivo do clube, apresento minha renúncia ao cargo de Presidente, com efeitos a partir desta data, antecipando, inclusive, o exercício do direito estatutário de aguardar a Assembleia Geral. Faço questão de registrar que deixo um clube esportivamente estruturado, com um time competitivo, que voltou a disputar decisões, chegou a finais e conquistou títulos de grande relevância. Destaco, de forma especial, a conquista da Copa do Brasil de 2023, título inédito e histórico, que simboliza o trabalho sério, responsável e comprometido desenvolvido ao longo da gestão. Esse desempenho é fruto do esforço conjunto de atletas, comissão técnica e profissionais do clube, aos quais manifesto meu respeito e confiança. Tenho absoluta convicção de que seguirão honrando essa camisa e lutando por títulos, com o apoio da torcida e da instituição. Meu afastamento também tem como objetivo permitir que eventuais apurações ocorram de forma ampla, técnica e isenta, sem qualquer alegação de interferência, para que a verdade possa ser plenamente buscada e alcançada. Reitero, por fim, minha certeza de que o São Paulo Futebol Clube é maior do que qualquer cargo, circunstância ou narrativa construída. Ao São Paulo Futebol Clube, amor de infância e da minha vida, jamais renunciarei. Renuncio, sim, ao ambiente de conspirações, distorções, mentiras e disputas de poder que ultrapassaram os limites democráticos e tentaram manchar trajetórias, biografias e a própria história do clube. Despeço-me com respeito, gratidão e amor permanente por esta instituição, que sempre honrarei. Júlio Casares Julio Casares, presidente do São Paulo Futebol Clube. Reprodução/TV Globo/Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo. PRAZER, RENATA O podcast 'Prazer, Renata' está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts. Siga, assine e curta o 'Prazer, Renata' na sua plataforma preferida.